Herpes-zóster: a dor que aparece antes das bolhas
Imagem ilustrativa.
O relato costuma ser esse: uma dor estranha de um lado das costas, ou embaixo da costela, ou no rosto. Não passa com analgésico comum. A pessoa pensa em má postura, em nervo preso, em pancada esquecida.
Dois ou três dias depois surgem as bolhas, sempre do mesmo lado, sempre naquela mesma faixa. Aí o quadro fica claro. Herpes-zóster.
O problema é que a clareza chegou tarde para a melhor janela de tratamento.
O que é o herpes-zóster
Herpes-zóster é a reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo da catapora, que fica adormecido nos gânglios nervosos depois da infecção original.
Quem teve catapora na infância carrega esse vírus em estado latente. Em algum momento, geralmente por queda da imunidade celular, ele volta a se multiplicar e percorre o trajeto de um nervo até a pele.
É por isso que a doença tem uma apresentação tão característica: ela segue exatamente o território de um nervo, chamado dermátomo.
Os sinais que definem o diagnóstico
Distribuição unilateral. Este é o ponto central. As lesões ficam de um lado só e não cruzam a linha média do corpo. Uma erupção que aparece dos dois lados de forma simétrica dificilmente é zóster.
Distribuição em faixa, acompanhando o trajeto do nervo. Tronco e face são os locais mais frequentes.
Dor antes das lesões. Chamada de fase prodrômica, dura de 1 a 5 dias e é descrita como queimação, choque, fisgada ou sensibilidade exagerada ao toque. É a fase que mais confunde.
Bolhas agrupadas sobre base avermelhada, que surgem em grupos, evoluem para pústulas e depois formam crostas em cerca de 7 a 10 dias.
Por que as 72 horas importam
O tratamento antiviral tem eficácia maior quando iniciado nas primeiras 72 horas após o aparecimento das lesões cutâneas. Começar dentro dessa janela reduz o tempo de doença, a intensidade do quadro e contribui para diminuir o risco de dor persistente.
Isso transforma o zóster numa daquelas situações em que procurar atendimento rápido muda o desfecho. Não é exagero de médico.
Se você tem uma dor em faixa de um lado só e aparecem bolhas agrupadas, não espere para ver no que dá.
A complicação que mais preocupa
Neuralgia pós-herpética é a dor que persiste no território afetado mesmo depois que a pele cicatrizou. Pode durar meses e, em alguns casos, mais de um ano.
Ela é a complicação mais comum do zóster, e o risco aumenta:
- Com a idade, sobretudo acima dos 50 e mais ainda acima dos 60 anos.
- Quando a dor aguda foi intensa.
- Quando a erupção foi extensa.
- Quando o tratamento foi iniciado tardiamente.
Existem outras complicações menos frequentes, como infecção bacteriana secundária das lesões e alterações de pigmentação ou cicatrizes residuais.
As situações que pedem pressa maior
Alguns cenários exigem avaliação imediata:
Zóster oftálmico. Lesões na testa, ao redor do olho, na pálpebra ou na ponta do nariz. Esse último detalhe tem nome, sinal de Hutchinson, e sugere envolvimento do ramo nasociliar, com maior risco ocular. Pode comprometer a córnea e a visão, e demanda avaliação oftalmológica rápida.
Zóster em imunossuprimidos, como pessoas em quimioterapia, transplantados, em uso de imunobiológicos ou corticoide em dose alta. O quadro pode ser mais extenso e mais grave.
Acometimento do ouvido, com dor intensa, vesículas no pavilhão auricular e paralisia facial do mesmo lado.
Lesões muito disseminadas, ultrapassando o dermátomo inicial.
Sobre o contágio
Este ponto gera confusão frequente.
Não se pega zóster de outra pessoa. O zóster vem do vírus que já estava dentro do próprio corpo.
O que pode acontecer é o contrário: o líquido das bolhas contém vírus e pode transmitir catapora para quem nunca teve e não foi vacinado. Por isso, enquanto houver lesões ativas, convém:
- Manter as lesões cobertas.
- Evitar contato com gestantes que não tiveram catapora, recém-nascidos e imunossuprimidos.
- Não compartilhar toalhas e roupas de cama.
Quando todas as lesões viram crosta, o risco de transmissão cessa.
Prevenção
Existe vacina contra herpes-zóster, indicada principalmente para faixas etárias mais altas e para determinados grupos de risco. A recomendação de quem deve tomar, e em que esquema, é individual e deve ser discutida com o médico, considerando idade, comorbidades e estado imunológico. O calendário oficial de vacinação do Ministério da Saúde é uma boa referência de partida para essa conversa.
O resumo
Dor em faixa, de um lado só, que aparece antes de qualquer lesão visível, é um sinal que merece atenção. Se depois surgirem bolhas agrupadas respeitando esse mesmo trajeto, o diagnóstico é bastante provável.
A conduta certa é simples de enunciar: procurar avaliação o quanto antes, de preferência dentro das primeiras 72 horas das lesões.
Referências
Herpes-zóster é contagioso?+
As lesões contêm vírus e podem transmitir catapora para quem nunca teve e não foi vacinado. Não se transmite zóster diretamente para outra pessoa. O risco existe enquanto houver bolhas, e cessa quando todas viram crosta.
Por que as primeiras 72 horas importam?+
O antiviral tem melhor resultado quando iniciado nas primeiras 72 horas após o surgimento das lesões. Começar cedo reduz a duração do quadro e ajuda a diminuir o risco de dor persistente depois.
O que é neuralgia pós-herpética?+
É a dor que continua no local mesmo depois que a pele já cicatrizou, podendo durar meses. É a complicação mais comum, e o risco aumenta com a idade e com a intensidade da dor na fase aguda.
Zóster perto do olho é mais grave?+
Sim. O acometimento do ramo oftálmico do nervo trigêmeo pode afetar a córnea e a visão. Lesões na testa, na pálpebra ou na ponta do nariz exigem avaliação oftalmológica rápida.
Quem já teve zóster pode ter de novo?+
Pode. A recorrência é menos comum, porém possível, principalmente em pessoas com imunidade comprometida.
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